Médica alerta para o crescimento no número de casos de doença renal crônica, condição que abala a saúde e a qualidade de vida

Nas últimas duas décadas, o Brasil viu o número de pessoas com doença renal crônica triplicar. Hoje mais de 120 mil cidadãos fazem diálise no país e estima-se que pelo menos 25 mil deles morram por ano. As alarmantes estatísticas brasileiras não destoam do resto do mundo. Calcula-se que 850 milhões de pessoas em todo o planeta são acometidas de algum comprometimento renal — são 2,4 milhões de óbitos por ano, o que coloca a doença renal como a 11ª causa de morte global.

Diante dessa epidemia, a sociedade médica internacional vem tentando chamar a atenção da população para essa dupla de órgãos tão vital à saúde e, no entanto, frequentemente esquecida. Além de remover resíduos e fluidos extras do sangue, os rins têm a tarefa de controlar o equilíbrio químico do corpo, ajudar no balanço da pressão arterial, conservar os ossos saudáveis e produzir o hormônio eritropoietina, necessário para manter os níveis dos glóbulos vermelhos e evitar a anemia.

O grande desafio da doença renal é que, em suas fases iniciais, ela é assintomática. Uma pessoa pode perder 90% das funções desses órgãos sem sentir nada. Somente em estágio avançado é que alguns sinais costumam aparecer, caso de inchaço, fadiga, diminuição de apetite, soluços, redução do volume de urina, entre outros.

Falamos de um problema que, a rigor, não tem cura, o que faz com que os pacientes necessitem de cuidados pela vida toda. Embora a qualidade do tratamento tenha avançado muito nos últimos anos, uma diálise individualizada e de qualidade ainda não é acessível a todos aqueles que precisam, assim como nem todos conseguem usufruir de um transplante de rim.

Como a prevalência da doença renal está aumentando drasticamente, o custo de tratamento dessa epidemia crescente representa enorme carga nos sistemas de saúde de todo o mundo. Na Inglaterra, o valor desembolsado no tratamento da condição já supera o custo dos cânceres de mama, pulmão, cólon e pele juntos. Na Austrália, o custo de tratar todos os casos atuais e novos até 2020 está estimado em 12 bilhões de dólares. Nos Estados Unidos, por sua vez, a despesa com o tratamento deve exceder 48 bilhões de dólares por ano.

A melhor estratégia para redução de custos e danos aos pacientes é a prevenção. O alerta é para que os países invistam mais nesse aspecto e tornem o rastreio de doenças renais um cuidado primário com a saúde, incluindo acesso a exames de sangue (creatinina) e urina (EAS). O diagnóstico e o tratamento precoces podem evitar ou retardar que as doenças renais evoluam para estágios mais graves, que necessitam de diálise ou transplante.
Pessoas com hipertensão e diabetes devem ter atenção especial, já que esses problemas são as principais causas da doença renal hoje. Portanto, proteger-se delas e manter uma dieta equilibrada e um estilo de vida saudável também é uma forma de cuidar bem dos rins.

* Dra. Ana Beatriz Barra é nefrologista, mestre pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e gerente médica da Fresenius Medical Care

Fonte: Saúde Abril